quinta-feira, 24 de maio de 2012

Quando eu

Quando eu não te tinha Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo. Agora amo a Natureza Como um monge calmo à Virgem Maria, Religiosamente, a meu modo, como dantes, Mas de outra maneira mais comovida e próxima ... Vejo melhor os rios quando vou contigo Pelos campos até à beira dos rios; Sentado a teu lado reparando nas nuvens Reparo nelas melhor — Tu não me tiraste a Natureza ... Tu mudaste a Natureza ... Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim, Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma, Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais, Por tu me escolheres para te ter e te amar, Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente Sobre todas as cousas. Não me arrependo do que fui outrora Porque ainda o sou. (Alberto Caeiro)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Do respeito ao meu cansaço

Senhor,peço permissão para baixar as armas,deixá-las no chão,retirar esta boina da cabeça e este uniforme do corpo porque,neste momento,não sou digna de tê-los.Quero pedir-te que me deixes chorar este cansaço, pensando em minhas vitórias e derrotas,nos amigos que se foram nessas batalhas e nos outros que ganhei; deixe, meu senhor, ao menos agora dizer que estou cansada.Me cansei.Hoje,neste exato momento,eu estou cansada de amar,de querer, de ter e peço com todo respeito, que respeite este meu cansaço e me libere apenas hoje para que eu possa ter comigo mesma.Deixe-me sair de forma, comandante! Mas eu aqui ergo a minha mão direita e deixo cair uma lágrima, na promessa de que não tardarei.Eu voltarei, acredite!Mas nesse instante,como qualquer soldado que aprendeu a sentir,eu preciso descansar,porque sentir, pensar e entender,uma vez ou outra,nos deixa assim.Neste instante partirei,comandante!E assumo que parto porque hoje eu cansei de amar.Desistirei,porém, no dia em que me cansar desses cansaços.Até lá,preciso de um tempo, de muita chuva e do meu lugar. Permissão para sair de forma,senhor.Permissão para sair de cena. Só hoje. Somente agora. Obrigada,comandante.

domingo, 13 de maio de 2012

Da Coincidência

“Eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu havia sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobêjo de esforço, fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga. Fui recebendo em mim um desejo que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem brincadeira— só meu companheiro amigo desconhecido.[...] Mas eu aguentei o aque do olhar dele. Aqueles olhos então foram ficando bons, retomando brilho. E o menino pôs a mão na minha. Encostava e ficava fazendo parte melhor da minha pele, no profundo, desse às minhas carnes alguma coisa. “ (João Guimarães Rosa)