quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Da vida


Dedicado à menina que disseram ter mais brilho que o sol.

Sol havia chegado ao limite de suas forças.Não sabia mais o que fazer e,acredito eu,era isso o que mais a incomodava.Sempre tão independente,tão radiosa e luminosa,tinha sempre uma solução para os nós que havia em sua vida.Ela os desembaraçava cuidadosa e pacientemente, sempre com um sorriso no rosto e um par de sóis nos olhos(daí um apelido que rima com seu nome.Ela também não gosta de rimas).Nunca a havia visto daquele jeito,tão…desprotegida,incerta…até eu me espantei.
-Você pode vir aqui em casa hoje,agora, se possível?
-Claro,Sol!O que houve?Por que está chorando?
-Só venha pra cá.Quando chegar aqui nós conversamos.
Saí naquela noite chuvosa,cantando os pneus do carro no asfalto,mas o meu pensamento já estava lá.Subi ao 14 º andar do prédio onde mora e ela imediatamente abriu a porta(ela conhece o barulho dos meus sapatos).Estava destruída.Olhos vermelhos vivos,cabelos sem pentear.Os sóis haviam cedido espaço para as nuvens densas e cinzentas do inverno.Entrei, e ela,secando as lágrimas que saiam quase que involuntariamente de seus olhos,me ofereceu um café e perguntou como eu estava.
-Sol,você sabe que eu não bebo café.
Ela só conseguiu se deslocar da porta da cozinha até os meus braços.Nunca ela havia me abraçado tão forte,tão desesperada,com tanto medo e dor, como naquele momento.Ela chorou por quase meia hora, e a única coisa que pude fazer foi acariciar os seus cabelos castanhos.
Quando ela já estava em condições,se afastou um pouco, secou as lágrimas e sorriu:
-Obrigada por ter vindo.
-Quer me contar o que aconteceu?
Nesse instante ela olhou pra mim.Eu havia esquecido que uma das especialidades de Sol é falar com os olhos.Ela detalhou cada fala,cada gesto,cada mínimo traço…eu agora sabia o motivo daquele desespero,mas mesmo assim não sabia o que dizer.
-Sabe quando a gente não consegue?Eu simplesmente não sei arrancar isso de mim,entende?Significou tanto…cada olhar,cada sorriso,cada beijo…eu sofro por não sofrer.A gente só esquece alguém,só deixa uma pessoa de lado, quando ela nos prejudica de uma certa forma, ou nos magoa.Eu sinto,por mais que as pessoas falem,por mais que ele fale,por mais que eu fale que nada disso vai dar certo,eu sinto que vai dar tudo certo,sabe? Cada lágrima que eu derramo hoje, é uma cachoeira pra mim.Por mais distantes e próximos que estejamos ao mesmo tempo…ele poderia ser tanta coisa…mas preferiu ser saudade.Eu sinto uma falta absurda dele e eu não sei o que fazer com isso.Eu não sei o que fazer com o amor,com a falta,com a esperança que insiste em crescer mais que capim,eu não sei o que fazer com as lembranças,que são tantas, de momentos tão bons.Eu não sei o que fazer com isso.Já tentei jogar fora,mas percebi que se o fizer, eu jogo metade de mim no lixo também;Já tentei queimar,mas eu me queimei primeiro;já tentei afogar,mas eu quase morro sem ar.Já tentei achar o nó que me une a tudo isso para tentar desatá-lo,mas percebi que não existe nó nenhum.Eu tenho detestado essa segurança terrível que ainda me resta…na verdade eu tenho medo dela.A minha raiva toda é que,mesmo depois de colocar a música que me faz sofrer,fechar os olhos e chorar, na esperança de que tudo isso saia com as lágrimas,eu percebo que elas limpam mais ainda tudo isso.Alguma coisa em mim não consegue desistir,mesmo depois de tantos fracassos,então, por mais que tudo no mundo fale pra eu desistir, eu não posso,eu não consigo e eu não quero.É mais que importante pra mim,entende?
Eu não disse nada.Ela não precisava de palavras,até porque não iria adiantar.O amor quando chega para quebrar as verdades que nós construímos de maneira equivocada,nos deixa assim mesmo…sem saber o que fazer.Palavras não adiantariam.Eu poderia até convencê-la, com argumentos lógicos,de que aquilo não daria certo realmente e era melhor que procurasse se afastar,mas Sol tem a alma de um anjo.Ela soltou a mão do mundo para se agarrar ao fio da sensibilidade dele,fio que ele mesmo não via.Eu apenas a abraçei e disse que estaria com ela,sempre, porque ela o amava,mesmo sabendo que ainda iria chorar tantas vezes…ela o amava e continuaria amando.

Do barco abandonado




"Barco abandonado
Na voz do tempo, na margem do rio
Nesta lonjura
Na voz dos temporais
Anoitece um canto sombrio
Nas pedras deste cais
Há um adeus no meu olhar
Este meu barco prisioneiro
Há-de ser viageiro
No meio do mar
Barco abandonado
Na noite escura, na ronda do vento
Neste silêncio
Na voz dos temporais
Um lamento que a dor esqueceu
Nas sombras deste cais
Há um adeus dito a sorrir
Do céu
Meu amor, ao céu que é meu e teu,
Um dia hei-de subir
Se te encontrar."

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sob um outro olhar


"...Deve ser por causa do medo do moço que a menina não gosta de rimas... Aprendeu que amor rima com dor, coração com desilusão, pensamentos com tormentos... Ah, menina... Acho que você nem sabe que seu brilho é maior que o sol. Se eu tivesse escrito seu apelido, teria feito uma rima, foi por isso que te chamei desde o início apenas de menina... Mas nem tudo na vida da menina só rima com dor, desilusão e tormento. Há dias de sol, de sorrisos, de música e poesia. E quando os dias estão nublados, a menina é a própria luz que ilumina a vida. Quem vê a menina nos fins de tarde a andar sem destino pelas ruas com fone de ouvido a cantarolar uma canção, se observar mais de perto, perceberá que o sol logo se põe toda vez a menina aparece com seu brilho e sorriso doce. É que o brilho da menina ofusca o brilho do sol, e ele não tem outra saída além de se esconder por entre as nuvens ofuscado e entristecido.
A menina é o próprio sol, é a própria música, é toda feita de amor. Os sonhos da menina são pura poesia. Se eu não tivesse visto a menina tão de perto, se não soubesse da sua história, jamais acreditaria na existência dela, diria ser fruto da minha inspiração. Quem sabe depois de ter conhecido o moço, de olhos tristes e cansados, não teria eu criado a menina para que a vida do moço tivesse um pouco mais de brilho e alegria? Mas amor a gente não cria, amor a gente descobre. Se a menina é puro amor é porque existe, tem até um apelido que rima com sol... E por existir foi que tocou o coração do moço. Mais dia, menos dia, o moço acabará descobrindo que quem lhe toca a campainha é amor da moça, e acabará abrindo a porta da frente, permitindo que o amor entre em sua casa e ali faça morada. O amor tem destas coisas..."

(Daniela Melo, 11 de novembro de 2011.)

sábado, 12 de novembro de 2011

Do acreditar


As imagens do homem máquina, do ser- cérebro e sistematico já se quebraram aos meus olhos.Por mais que te dediques a ser sempre esse poço de racionalidade,por mais que tu insistas em usar teus escudos … eu os vi cair por terra,eu senti o teu cansaço de guerra,eu vi brotar uma lágrima de tua alma, eu senti no teu abraço o coração arrebentando o peito,eu ouvi de teus lábios a palavra amor.
Não há mais volta,nem para mim e nem para ti.Eu sei de tua essência.Enquanto você se agarra aos seus pensamentos complexos,eu me agarro ao ser sensível que vejo dentro de ti,que sinto dentro de ti.Não quero que ele volte aos abismos que em outrora habitava.Acontecimentos da vida sufocam a sensibilidade ainda frágil,mas eu a vejo em teus olhos,querendo arrebentar o vidro fumê que impede a visão clara.Ainda tão frágil,tão linda…como uma criança que precisa de cuidados,ou de um idoso, que, após tantas quedas,tantos equívocos,precisa de amparo.
Estendo a minha mão tentando resgatar o que ainda resta,o que ficou depois de tantos erros e sofrimento. Eu acredito nesse grito que vem de dentro.
Eu quero estar perto pra te ver nascer de novo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Da importância


Ela é Clara até no nome.Tem olhos enormes e lindos,é muito grande para uma menina de quatorze anos,adora uma festa,um forró,um axé...onde tem festa ela vai.Parece uma boneca de porcelana,mas ao invés do vestidinho e do chapéu,prefere um short curto,uma blusa apertadinha e uma sandália alta.Fala gírias,imita o pato Donald como ninguém,dorme cedo e acorda tarde aos finais de semana e,quando acorda, reclama de ainda estar com sono,usa e bagunça minhas roupas,nunca arruma a cama.
Os opostos convivendo juntos.A cada dia eu tento ensiná-la a ser um pouco mais adulta e ela teima em me convencer que eu tenho que ser mais adolescente.Extremamente explosiva,mas até com "sangue no olho" ela é carinhosa.Vive a vida como se fosse um parque de diversões.No seu "infinito particular" ela guarda fotos,textos(alguns escritos pela própria),esperanças,sonhos...sentimentos de adolescente e que precisam ser vividos.Ela vive.Quando ela vive, se arrepende e chora,vem correndo pro meu ombro: "Irmã,que é que eu faço agora?","Por que isso só acontece comigo,irmã?"
Ela já amadureceu muito,mas,em seus olhos eu ainda percebo a travessura,a aventura,a sede do novo,até em sua voz,em seu modo de atroplelar as palavras.É a pressa de encontrar a felicidade,de viver(do modo dela,é claro),de ser alguém que tem opinião e que possa expressar essa opinião.
Minha menina cresceu tanto!Parece que foi ontem que a vi dando seus primeiros passos em direção a porta para me abraçar, quando eu chegava da escola.Tão diferentes nós somos...mas eu sei que ela vê em mim algo que quer ser mais tarde, e eu vejo naqueles olhos castanhos e grandes um alguém que um dia pude ser.Eu a amo como se fosse a mim mesma que estivesse dedicando esse sentimento.Ela consegue ser importante pra mim.

domingo, 6 de novembro de 2011

Watching Lara



E em meio a tantas coisas,entre palavras,gestos e pensamentos,entre os passos de dança,entre os frios que fazem tremer a alma e o corpo,entre os rascunhos e palavras soltas num pedaço de papel,no espaço entre eu e eu mesma,no mínimo espaço entre eu e você... são somente os detalhes que restam,que marcam e que deixam vivos os momentos que nunca mais voltarão.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Do frio (ou da falta)

Ela tremia até os ossos.Estava com frio, tensa....ela amava alguém.Ela se continha ao olhar pra mim,mas, por dentro,até o coração sentia frio.Ela acordou com essa sensação,passou o dia com ela e agora à noite,sempre á noite,ela já não conseguia segurar.
Mas me recordo de um momento do dia em que ela esteve mais quentinha que qualquer outra pessoa da cidade!Esteve coberta até os olhos,o nariz...nem seus dentes se batiam e nem seus lábios estavam roxos.Seu coração batia com-pas-sa-da-mente,sem conflito algum...só batia.
Mas agora essa criaturinha chega em minha casa tremendo de frio e eu,sinceramente,não sei o que fazer para aquecê-la(quando se fica mais quentinha que as outras pessoas da cidade, é difícil se contentar com míseros cobertores).Já tentei de tudo,mas seus grandes olhos não conseguem mentir:ela sente frio ainda.Dei um chá bem quentinho,cobri o seu corpo com três cobertores, dos melhores que tenho,dei um banho de água quase fervendo,mas nada adiantou,por mais que ela dissesse "tudo bem,tia!Já passou",seus olhos tremiam da mesma forma que os dentes se batiam dentro da boca,e os seus lábios já estavam tão roxinhos...ela se fez de forte(na verdade ela sempre faz isso),mas por dentro tudo tremia.
Agora ela treme um pouco menos.Tento fazê-la se lembrar dos breves,eternos e magníficos minutos em que nenhum vento(ou vazio gelado)ousava incomodar-lhe.Como os seus lábios estavam vermelhinhos e a ponta do seu nariz bem quentinha,como o seu coração batia compassadamente,calmamente...
Ela me perguntava toda hora: "Tia,quando é que eu vou parar de tremer tanto?"E toda vez que fazia isso,era eu quem tremia: "Não sei,minha querida,mas acho melhor você dormir.Quer que eu pegue mais um edredom(esta sempre era a minha fala,medíocre fala)?"E ela fazia um sinal afirmativo com a cabeça,virava pro canto e fechava os olhos e eu tentava(na verdade eu tento até agora)amenizar o frio externo,mesmo sabendo que o frio extremo que ela sentia(e sente ainda) é na alma.

04/11/2011 22:30

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Do começo do mês


Já estamos no começo do mês de novembro, e no final do ano de 2011(nossa!).Ainda com a mão cortada(um pequeno desvio no olhar me custou cinco pontos na mão direita) e com uma certa dificuldade para escrever,já que preciso do polegar para isso e estou impossibilitada de usá-lo,dou as boas vindas ao mês de novembro.Não me lembro de sequer sentir o ano passar(sou péssima em datas,meses...só lembro do dia do meu aniversário e,mesmo assim porque os outros me lembram),mas os meus dias tem sido importantes.Seja por um corte no lábio(eu juro que não vi o varal à minha frente),seja por uma viagem maravilhosa,seja por estar em casa,quieta e sozinha, seja por estar com as pessoas que me são caras(isso inclui as pessoas as quais não tenho afinidade),seja por estar ao lado de quem amo,mesmo que por pouco tempo,seja por subir numa árvore e chorar a tarde toda...meus dias tem sido diferentes e importantes pra mim.
Não me prendo a datas(a não ser por uma questão profissional.E nisso eu sou doentia),mas os acontecimentos de minha vida tem me trazido reflexões,todos os dias.

Só me resta agradecer(e pedir a Deus para chegar logo o dia em que tirarei esses pontos benditos que tanto me incomodam.)


"Acordei entre um tênue vento e uma luminosidade tímida.Ainda era cedo e olhava para o horizonte para descobrir,as cores e as intenções, com que vestias o novembro...

e que este venha e traga bons ventos."