Do céu desciam pedaços de seda coloridos, que se confundiam, se fundiam, formando novas cores, ao som leve de um piano. A cada nota um "dançar" diferente daqueles panos. A moça de feições finas, gentis e sensíveis, descia por entre aquelas tiras, e o seu corpo era levado pelo vento e pelas notas, que coloriam o palco de luzes mortas e roupas funestas. A multidão estava embevecida com tamanha beleza. Aquela alma leve era sustentada pela seda que se combinava perfeitamente com as curvas de seu corpo. Ela voava de um lado a outro, ficava de ponta-cabeça, soltava os braços, depois as pernas... foi fantástico! O público aplaudia freneticamente a apresentação daquela jovem, que saia sorrindo do palco.No camarim,porém, a menina cedia lugar àquela mulher de trinta e poucos anos, com as mãos cortadas, as pernas marcadas pelos panos que foram amarrados, trêmula e feliz. Ela se sentia mãe todas as vezes que encarava a multidão. Estava ali para mostrar sua filha, motivo de sua maior felicidade, para todos aqueles que se faziam presentes. Vivia apenas para ela e por ela e, todos os dias, ela vivenciava o momento mais importante e o mais bonito da vida de mãe: o parto. Seus movimentos, sua respiração ofegante, o seu levitar por entre as cores das tiras de pano, as suas mãos cortadas, as suas pernas arranhadas, as lágrimas e o sorriso, eram sua maior prova de amor por esta filha que ela permitia sair de suas entranhas para o mundo. E a resposta eram os aplausos da multidão, de pé, as rosas no palco, as lágrimas e assovios. Ela estava plena, aquela menina, aquela mulher, que agora se deita em seu lugar aguardando o próximo show.