sábado, 13 de dezembro de 2014

Sono das águas

"Há uma hora certa,
no meio de noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
 Todas as águas dormem:no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
 Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
  Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…"

João Guimarães Rosa

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Soneto da saudade

"Quando sentires a saudade retroar 
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!
Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas...
E a te expressar que este amor em nós ungindo
Suportará toda distância sem problemas...
Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.
Lembrar-te-ás toda ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos... 
Nem a distância apaga a chama da paixão"


Guimarães Rosa

sábado, 6 de dezembro de 2014

Do que me resta


Tenho conseguido pensar bem pouco e muita coisa não tem feito sentido para mim. Meus passos andam incertos, minhas mãos já perderam até o ritmo para escrever. Por quê? Porque o ritmo é dado por um coração que eu já não tenho mais. Já não falo das lindas coisas que outrora vi e senti, porque já não as sinto mais; Já não ando por caminhos tão coloridos. Do meu aconchego resta-me apenas o cobertor e a caixa de jóias, que não ouso abrir.

Ah,sempiterno amor! Que mesmo tendo levado de mim o coração ainda habita minhas entranhas, meu sangue, meu cérebro. É por ti que um dia sorrirei novamente.

Quando? Não sei.

domingo, 24 de agosto de 2014


 Não acho que conseguirei abandonar este sótão que criei para mim. É aqui que guardo O que ninguém vê, o que ninguém sente só em me olhar. É aqui que cultivo, pacientemente impaciente, a (ir) racionalidade que me pertence, porque é ela que me permite estar viva para o mundo. E aqui que eu, raras vezes, falo da sublimidade e da dor que me afloram vez ou outra. E aqui que me sinto integralmente. Estes segredos fazem parte da minha essência.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Homenagem a quem nunca irá


Morre um dos meus escritores favoritos. Um Espírito genial,criativo e crítico, que defende a valorização da sua cultura e a reafirmação de valores já esquecidos pela nossa juventude. Obrigada por deixar em nós a semente do bom senso.