segunda-feira, 25 de novembro de 2013

  



É como se ela fosse parte daquele corpo. Nunca havia sentido duas peças se juntarem tão perfeitamente como naquele abraço. Ela sentia aquele coração batendo tão perfeitamente, sentia-se quase plena, como se aquele peito estivesse ali apenas para ela, projetado para apoiar o seu rosto menino. Não havia mais chuva, nem trovões, não havia erros...apenas os dois ali. Ele, como quem cuida e ama, ela, como quem ama e ama...e ama. O som do coração do menino era sua música...era ali que ela morava...sentia sua casa, sua cama...sentia-se novamente, por longos cinco minutos, que estarão no seu guarda-sonhos, como todos os outros momentos.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Da outra parte do discurso


Eis o que a mente fez: pegou todas as criações, lembranças e esperanças, colocou em um local hermeticamente fechado e congelou. Congelou tudo! O coração, coitado, ficou desesperado. Em uma última tentativa, na esperança de convencer a mente de acabar com esta atitude insana( é...) deu o seu grito de socorro: juntou os cacos de coragem que tinha e foi. E esperou...esperou...esperou... e recebeu o silêncio. Voltou para o seu lugar e aceitou com resignação o destino de suas criações. Que permaneçam todas lá. Mas isso não significa que estão mortas. Quem conhece os princípios da refrigeração e do congelamento sabe perfeitamente que o frio apenas amortece, que ainda há vida pulsante lá dentro... vai ver que a mente não é tão insana assim. Quem sabe um dia as criações sejam remontadas.... quem sabe?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

E eu que nada tenho

Senhor, eu que nada tenho, o que tenho dou-te.

Dou-te a minha voz, o meu canto, a minha música

Dou-te os meus passos, tão limitados, porém verdadeiros

Os meus olhos, meus grandes olhos, que, por vezes, refletem tristeza e angústia, mas que querem ser espelho de Tua glória

O meu sorriso que poucas vezes se mostra, mas que clama para traduzir o Teu amor

Dou-te os meus braços, Senhor, para que eles sejam alavancas incansáveis dos Teus pequeninos

Dou-te todas as minhas intenções, na perspectiva de que elas se alegrem unicamente com a Tua presença

Senhor, não tendo absolutamente mais nada, dou-te o meu coração. Este vaso repleto de iniquidades, cansado de sofrer e amar, que roga ardentemente que plantes o lírio da paz em seu íntimo

Porém, Senhor, se a minha voz se calar, se os meus olhos experimentarem o abismo escuro, se os meus braços me forem tirados e o meu sorriso perder-se, dou-te a mim mesma, porque, sabendo que nada tenho, o que tenho....Dou-te.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Da partida

Ela começou a ver. Via que, que nunca, NUNCA, tinha sido uma prioridade. Sempre esteve lá no fundo da fila, só, esperando algo que nunca chegaria e só ela não via. Mas agora ela vê, mesmo chovendo muito ela vê e, às vezes, ver faz doer o coração.
As malas dela já estão prontas. Ela não tem muita coisa para levar...na verdade ela não tem o que levar. Deus queira que a chuva ajude a apagar todas as pegadas que ela deixar.

 Que Ele segure as suas mãos.

sábado, 15 de junho de 2013

De volta ao começo

"E o menino com o brilho do sol na menina dos olhos
Sorri e estende a mão entregando o seu coração
E eu entrego o meu coração
E eu entro na roda e canto as antigas cantigas de amigo irmão
As canções de amanhecer lumiar a escuridão
E é como se eu despertasse de um sonho que não me deixou viver
E a vida explodisse em meu peito com as cores que eu não sonhei
E é como se eu descobrisse que a força esteve o tempo todo em mim
E é como se então de repente eu chegasse ao fundo do fim
De volta ao começo
Ao fundo do fim
De volta ao começo"

(Nanna Caymmi)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Da parte mais linda do diário

Rosa,é você!
Por que sumiu? Anda estudando muito, vivendo muito, ou vivendo tão pouco que não tem tempo para mais nada?

Rosa, você pintou os cabelos?

Eles estão mais escuros. Lembro-me de quando você era bem loirinha,minha filha! E a gente ouvia.... como é,Lia? "Mia Gioconda"? É! Ouvíamos "Mia Gioconda", ali naquela sala, quando eu chegava do trabalho, cansado, e você aparecia, cantando tudo errado e com aqueles cabelos loiros e despenteados "Vô, canta para mim?"

Rosa, você emagreceu?
  Você era tão gordinha,minha filha! Lembro até quando você ficou presa na estante da Ave Maria da sala. Depois disso eu mandei destrui-la.

Rosa, deita aqui e deixa eu lhe fazer um cafuné e cantar para você novamente.



Rosa( que nunca foi Rosa), sentiu novamente o doce prazer do colo de um pai.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Introspecção

Ela nunca foi boa com palavras,apesar de gostar muito delas. Todos aqueles discursos de uma hora, lindos, inteligentes...ela sempre se perguntava: "como ele consegue?"
Mas ela não tinha tanta aptidão assim. Talvez por ser ainda uma menina, mas  que quando se tornasse uma mulher seria uma verdadeira poetisa, que encantaria a todos com o seu dom.... talvez isso demorasse séculos para acontecer... ou talvez ela não quisesse nada disso.
Ela então foi descobrindo que a chuva, o pôr-do-sol, a lua cheia na madrugada fria, o seu ser intrépido, descalço e viajante, o barulho das ondas do mar limpando a areia esquálida, o vento frio que sussurra amor para as copas das árvores, eram as suas palavras. Esse era o seu talento.


Então escrever e falar, se tornaram coisas mínimas para ela. Quem sabe quando se tornar uma mulher ela deixe essas bobagens de lado.

sábado, 20 de abril de 2013

A moeda

Eu sussurrei:
"Eu sou jovem demais"
E então:
"Eu tenho idade"
Portanto eu
atirei uma moeda
Para saber
se eu poderia amar.
"Vá e ame, vá e ame,
meu jovem,
Se a moça for jovem e bela
Ah uma moeda,
uma moeda , uma moeda...
Eu me perdi
nas tranças do cabelo dela.


Ah,
o amor é complicado,
Ninguém é
sábio o bastante
Para saber
o que é o amor,
Pois ele pensaria em amar
Até as estrelas sumirem
E as sombras
devorarem a lua.
Ah uma moeda,
uma moeda, uma moeda,
É bom começar a amar logo.

(William Butler Yeats)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Não é falta de tempo, tampouco insensibilidade. É só que eu fiz muito barulho aqui dentro e, para quem não sabe, barulho cega e surda. Só preciso voltar a fazer silêncio. Nunca me acostumei ao barulho.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Do céu desciam pedaços de seda coloridos, que se confundiam, se fundiam, formando novas cores, ao som leve de um piano. A cada nota um "dançar" diferente daqueles panos. A moça de feições finas, gentis e sensíveis, descia por entre aquelas tiras, e o seu corpo era levado pelo vento e pelas notas, que coloriam o palco de luzes mortas e roupas funestas. A multidão estava embevecida com tamanha beleza. Aquela alma leve era sustentada pela seda que se combinava perfeitamente com as curvas de seu corpo. Ela voava de um lado a outro, ficava de ponta-cabeça, soltava os braços, depois as pernas... foi fantástico! O público aplaudia freneticamente a apresentação daquela jovem, que saia sorrindo do palco.
 No camarim,porém, a menina cedia lugar àquela mulher de trinta e poucos anos, com as mãos cortadas, as pernas marcadas pelos panos que foram amarrados, trêmula e feliz. Ela se sentia mãe todas as vezes que encarava a multidão. Estava ali para mostrar sua filha, motivo de sua maior felicidade, para todos aqueles que se faziam presentes. Vivia apenas para ela e por ela e, todos os dias, ela vivenciava o momento mais importante e o mais bonito da vida de mãe: o parto. Seus movimentos, sua respiração ofegante, o seu levitar por entre as cores das tiras de pano, as suas mãos cortadas, as suas pernas arranhadas, as lágrimas e o sorriso, eram sua maior prova de amor por esta filha que ela permitia sair de suas entranhas para o mundo. E a resposta eram os aplausos da multidão, de pé, as rosas no palco, as lágrimas e assovios. Ela estava plena, aquela menina, aquela mulher, que agora se deita em seu lugar aguardando o próximo show.