sábado, 31 de dezembro de 2011

Do pedido mais sincero


Bom,será que agora podemos voltar ao normal?Será que dá pra deixar essa bincadeira de mau gosto pra trás?Será que dá pra parar de agir como se eu fosse uma mera conhecida?Dá pra você parar de me olhar como se nada tivesse acontecido?Se o objetivo foi me assustar,me deixar triste,me afastar,ótimo!Você conseguiu!Estou aqui aos franganhos,com o coração comprimido com arame farpado por todos os lados,estou aqui,frágil como eu nunca pensei ou quis estar,insegura como eu nunca fui,confusa como eu nunca fiquei…se essa era a sua vontade…vitória!Mas alguma coisa em mim diz que não é isso que você quer,então, será que dá pra me abraçar forte novamente,aquele abraço de estalar todos os ossos da coluna vertebral?Será que dá pra você me olhar nos olhos com a mesma intensidade de antes?Será que dá pra você me ligar,se preocupar comigo e responder as minhas preocupações?Será que você pode me devolver as madrugadas de boas conversas e risadas,os sorrisos mais espontâneos…eu os quero de volta.
Sei que você pensa que é o melhor pra mim toda essa distância,que é melhor pra você,inclusive,que assim será mais fácil por as coisas em ordem,mas nunca foi tão difícil pra mim.Talvez seja essa distância que está tornando as coisas mais difíceis.Eu sinto falta do companheirismo,sinto falta da informalidade,dos sorrisos descuidados e verdadeiros,da confiança…eu sinto falta da amizade.Então será que dá pra você deixar de ser cabeça dura e “voltar”?Não me faz correr atrás e me machucar…e te machucar!Facilita as coisas pra nós dois porque eu já estou no limite de minhas forças.Lembra de tudo o que conversamos,de tudo o que deixamos de falar com palavras, mas falamos com os olhos,lembra de cada detalhe dos nossos gestos, de cada sentimento empregado neles e me faz um favor,na verdade, nos faça um favor…”volta”. 04/12/2011

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Do momento que a gente precisa




"Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio - e eis que a verdade se me revela."(Albert Einstein)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Da proposta


Ei menino(que mais parece um homem,mas, pra mim, é um menino),será que você pode segurar firme a minha mão?É,isso mesmo!Deixa eu te ajudar a colorir a tela,juro que escolherei as cores mais belas para te mostrar.
Deixa eu pintar o teu céu,não só de azul,mas de todas as cores que o meu coração consegue criar,deixa eu desenhar os pássaros,as árvores…
Deixa eu desenhar os contornos dos teus labios com toda a suavidade que as minhas mãos puderem dar a eles…
Deixa reescrever os teus olhos?Deixa eu dar um brilho diferente a eles…tirar esse negro melancólico e culpado e,com todo o meu carinho,pintá-lo com a “cor-de-para-sempre”...
E para dar vida a tudo que construirmos, eu chamo o vento pra fazer um afago nos teus cachos,o sol pra fazer brilhar os teus olhos e sorriso…o teu mundo.
E depois,com todo o amor que pode haver em mim,passearemos juntos,só pra você ver como tudo ficou mais bonito.
É só estender a mão,menino!Sei que tirar a sujeira e reinventar tudo dá um certo trabalho,mas eu ajudo até o final.Confia em mim!
É só segurar a minha mão… firme,forte e com um sorriso nos lábios.
Vem…?

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Da vida


Dedicado à menina que disseram ter mais brilho que o sol.

Sol havia chegado ao limite de suas forças.Não sabia mais o que fazer e,acredito eu,era isso o que mais a incomodava.Sempre tão independente,tão radiosa e luminosa,tinha sempre uma solução para os nós que havia em sua vida.Ela os desembaraçava cuidadosa e pacientemente, sempre com um sorriso no rosto e um par de sóis nos olhos(daí um apelido que rima com seu nome.Ela também não gosta de rimas).Nunca a havia visto daquele jeito,tão…desprotegida,incerta…até eu me espantei.
-Você pode vir aqui em casa hoje,agora, se possível?
-Claro,Sol!O que houve?Por que está chorando?
-Só venha pra cá.Quando chegar aqui nós conversamos.
Saí naquela noite chuvosa,cantando os pneus do carro no asfalto,mas o meu pensamento já estava lá.Subi ao 14 º andar do prédio onde mora e ela imediatamente abriu a porta(ela conhece o barulho dos meus sapatos).Estava destruída.Olhos vermelhos vivos,cabelos sem pentear.Os sóis haviam cedido espaço para as nuvens densas e cinzentas do inverno.Entrei, e ela,secando as lágrimas que saiam quase que involuntariamente de seus olhos,me ofereceu um café e perguntou como eu estava.
-Sol,você sabe que eu não bebo café.
Ela só conseguiu se deslocar da porta da cozinha até os meus braços.Nunca ela havia me abraçado tão forte,tão desesperada,com tanto medo e dor, como naquele momento.Ela chorou por quase meia hora, e a única coisa que pude fazer foi acariciar os seus cabelos castanhos.
Quando ela já estava em condições,se afastou um pouco, secou as lágrimas e sorriu:
-Obrigada por ter vindo.
-Quer me contar o que aconteceu?
Nesse instante ela olhou pra mim.Eu havia esquecido que uma das especialidades de Sol é falar com os olhos.Ela detalhou cada fala,cada gesto,cada mínimo traço…eu agora sabia o motivo daquele desespero,mas mesmo assim não sabia o que dizer.
-Sabe quando a gente não consegue?Eu simplesmente não sei arrancar isso de mim,entende?Significou tanto…cada olhar,cada sorriso,cada beijo…eu sofro por não sofrer.A gente só esquece alguém,só deixa uma pessoa de lado, quando ela nos prejudica de uma certa forma, ou nos magoa.Eu sinto,por mais que as pessoas falem,por mais que ele fale,por mais que eu fale que nada disso vai dar certo,eu sinto que vai dar tudo certo,sabe? Cada lágrima que eu derramo hoje, é uma cachoeira pra mim.Por mais distantes e próximos que estejamos ao mesmo tempo…ele poderia ser tanta coisa…mas preferiu ser saudade.Eu sinto uma falta absurda dele e eu não sei o que fazer com isso.Eu não sei o que fazer com o amor,com a falta,com a esperança que insiste em crescer mais que capim,eu não sei o que fazer com as lembranças,que são tantas, de momentos tão bons.Eu não sei o que fazer com isso.Já tentei jogar fora,mas percebi que se o fizer, eu jogo metade de mim no lixo também;Já tentei queimar,mas eu me queimei primeiro;já tentei afogar,mas eu quase morro sem ar.Já tentei achar o nó que me une a tudo isso para tentar desatá-lo,mas percebi que não existe nó nenhum.Eu tenho detestado essa segurança terrível que ainda me resta…na verdade eu tenho medo dela.A minha raiva toda é que,mesmo depois de colocar a música que me faz sofrer,fechar os olhos e chorar, na esperança de que tudo isso saia com as lágrimas,eu percebo que elas limpam mais ainda tudo isso.Alguma coisa em mim não consegue desistir,mesmo depois de tantos fracassos,então, por mais que tudo no mundo fale pra eu desistir, eu não posso,eu não consigo e eu não quero.É mais que importante pra mim,entende?
Eu não disse nada.Ela não precisava de palavras,até porque não iria adiantar.O amor quando chega para quebrar as verdades que nós construímos de maneira equivocada,nos deixa assim mesmo…sem saber o que fazer.Palavras não adiantariam.Eu poderia até convencê-la, com argumentos lógicos,de que aquilo não daria certo realmente e era melhor que procurasse se afastar,mas Sol tem a alma de um anjo.Ela soltou a mão do mundo para se agarrar ao fio da sensibilidade dele,fio que ele mesmo não via.Eu apenas a abraçei e disse que estaria com ela,sempre, porque ela o amava,mesmo sabendo que ainda iria chorar tantas vezes…ela o amava e continuaria amando.

Do barco abandonado




"Barco abandonado
Na voz do tempo, na margem do rio
Nesta lonjura
Na voz dos temporais
Anoitece um canto sombrio
Nas pedras deste cais
Há um adeus no meu olhar
Este meu barco prisioneiro
Há-de ser viageiro
No meio do mar
Barco abandonado
Na noite escura, na ronda do vento
Neste silêncio
Na voz dos temporais
Um lamento que a dor esqueceu
Nas sombras deste cais
Há um adeus dito a sorrir
Do céu
Meu amor, ao céu que é meu e teu,
Um dia hei-de subir
Se te encontrar."

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sob um outro olhar


"...Deve ser por causa do medo do moço que a menina não gosta de rimas... Aprendeu que amor rima com dor, coração com desilusão, pensamentos com tormentos... Ah, menina... Acho que você nem sabe que seu brilho é maior que o sol. Se eu tivesse escrito seu apelido, teria feito uma rima, foi por isso que te chamei desde o início apenas de menina... Mas nem tudo na vida da menina só rima com dor, desilusão e tormento. Há dias de sol, de sorrisos, de música e poesia. E quando os dias estão nublados, a menina é a própria luz que ilumina a vida. Quem vê a menina nos fins de tarde a andar sem destino pelas ruas com fone de ouvido a cantarolar uma canção, se observar mais de perto, perceberá que o sol logo se põe toda vez a menina aparece com seu brilho e sorriso doce. É que o brilho da menina ofusca o brilho do sol, e ele não tem outra saída além de se esconder por entre as nuvens ofuscado e entristecido.
A menina é o próprio sol, é a própria música, é toda feita de amor. Os sonhos da menina são pura poesia. Se eu não tivesse visto a menina tão de perto, se não soubesse da sua história, jamais acreditaria na existência dela, diria ser fruto da minha inspiração. Quem sabe depois de ter conhecido o moço, de olhos tristes e cansados, não teria eu criado a menina para que a vida do moço tivesse um pouco mais de brilho e alegria? Mas amor a gente não cria, amor a gente descobre. Se a menina é puro amor é porque existe, tem até um apelido que rima com sol... E por existir foi que tocou o coração do moço. Mais dia, menos dia, o moço acabará descobrindo que quem lhe toca a campainha é amor da moça, e acabará abrindo a porta da frente, permitindo que o amor entre em sua casa e ali faça morada. O amor tem destas coisas..."

(Daniela Melo, 11 de novembro de 2011.)

sábado, 12 de novembro de 2011

Do acreditar


As imagens do homem máquina, do ser- cérebro e sistematico já se quebraram aos meus olhos.Por mais que te dediques a ser sempre esse poço de racionalidade,por mais que tu insistas em usar teus escudos … eu os vi cair por terra,eu senti o teu cansaço de guerra,eu vi brotar uma lágrima de tua alma, eu senti no teu abraço o coração arrebentando o peito,eu ouvi de teus lábios a palavra amor.
Não há mais volta,nem para mim e nem para ti.Eu sei de tua essência.Enquanto você se agarra aos seus pensamentos complexos,eu me agarro ao ser sensível que vejo dentro de ti,que sinto dentro de ti.Não quero que ele volte aos abismos que em outrora habitava.Acontecimentos da vida sufocam a sensibilidade ainda frágil,mas eu a vejo em teus olhos,querendo arrebentar o vidro fumê que impede a visão clara.Ainda tão frágil,tão linda…como uma criança que precisa de cuidados,ou de um idoso, que, após tantas quedas,tantos equívocos,precisa de amparo.
Estendo a minha mão tentando resgatar o que ainda resta,o que ficou depois de tantos erros e sofrimento. Eu acredito nesse grito que vem de dentro.
Eu quero estar perto pra te ver nascer de novo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Da importância


Ela é Clara até no nome.Tem olhos enormes e lindos,é muito grande para uma menina de quatorze anos,adora uma festa,um forró,um axé...onde tem festa ela vai.Parece uma boneca de porcelana,mas ao invés do vestidinho e do chapéu,prefere um short curto,uma blusa apertadinha e uma sandália alta.Fala gírias,imita o pato Donald como ninguém,dorme cedo e acorda tarde aos finais de semana e,quando acorda, reclama de ainda estar com sono,usa e bagunça minhas roupas,nunca arruma a cama.
Os opostos convivendo juntos.A cada dia eu tento ensiná-la a ser um pouco mais adulta e ela teima em me convencer que eu tenho que ser mais adolescente.Extremamente explosiva,mas até com "sangue no olho" ela é carinhosa.Vive a vida como se fosse um parque de diversões.No seu "infinito particular" ela guarda fotos,textos(alguns escritos pela própria),esperanças,sonhos...sentimentos de adolescente e que precisam ser vividos.Ela vive.Quando ela vive, se arrepende e chora,vem correndo pro meu ombro: "Irmã,que é que eu faço agora?","Por que isso só acontece comigo,irmã?"
Ela já amadureceu muito,mas,em seus olhos eu ainda percebo a travessura,a aventura,a sede do novo,até em sua voz,em seu modo de atroplelar as palavras.É a pressa de encontrar a felicidade,de viver(do modo dela,é claro),de ser alguém que tem opinião e que possa expressar essa opinião.
Minha menina cresceu tanto!Parece que foi ontem que a vi dando seus primeiros passos em direção a porta para me abraçar, quando eu chegava da escola.Tão diferentes nós somos...mas eu sei que ela vê em mim algo que quer ser mais tarde, e eu vejo naqueles olhos castanhos e grandes um alguém que um dia pude ser.Eu a amo como se fosse a mim mesma que estivesse dedicando esse sentimento.Ela consegue ser importante pra mim.

domingo, 6 de novembro de 2011

Watching Lara



E em meio a tantas coisas,entre palavras,gestos e pensamentos,entre os passos de dança,entre os frios que fazem tremer a alma e o corpo,entre os rascunhos e palavras soltas num pedaço de papel,no espaço entre eu e eu mesma,no mínimo espaço entre eu e você... são somente os detalhes que restam,que marcam e que deixam vivos os momentos que nunca mais voltarão.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Do frio (ou da falta)

Ela tremia até os ossos.Estava com frio, tensa....ela amava alguém.Ela se continha ao olhar pra mim,mas, por dentro,até o coração sentia frio.Ela acordou com essa sensação,passou o dia com ela e agora à noite,sempre á noite,ela já não conseguia segurar.
Mas me recordo de um momento do dia em que ela esteve mais quentinha que qualquer outra pessoa da cidade!Esteve coberta até os olhos,o nariz...nem seus dentes se batiam e nem seus lábios estavam roxos.Seu coração batia com-pas-sa-da-mente,sem conflito algum...só batia.
Mas agora essa criaturinha chega em minha casa tremendo de frio e eu,sinceramente,não sei o que fazer para aquecê-la(quando se fica mais quentinha que as outras pessoas da cidade, é difícil se contentar com míseros cobertores).Já tentei de tudo,mas seus grandes olhos não conseguem mentir:ela sente frio ainda.Dei um chá bem quentinho,cobri o seu corpo com três cobertores, dos melhores que tenho,dei um banho de água quase fervendo,mas nada adiantou,por mais que ela dissesse "tudo bem,tia!Já passou",seus olhos tremiam da mesma forma que os dentes se batiam dentro da boca,e os seus lábios já estavam tão roxinhos...ela se fez de forte(na verdade ela sempre faz isso),mas por dentro tudo tremia.
Agora ela treme um pouco menos.Tento fazê-la se lembrar dos breves,eternos e magníficos minutos em que nenhum vento(ou vazio gelado)ousava incomodar-lhe.Como os seus lábios estavam vermelhinhos e a ponta do seu nariz bem quentinha,como o seu coração batia compassadamente,calmamente...
Ela me perguntava toda hora: "Tia,quando é que eu vou parar de tremer tanto?"E toda vez que fazia isso,era eu quem tremia: "Não sei,minha querida,mas acho melhor você dormir.Quer que eu pegue mais um edredom(esta sempre era a minha fala,medíocre fala)?"E ela fazia um sinal afirmativo com a cabeça,virava pro canto e fechava os olhos e eu tentava(na verdade eu tento até agora)amenizar o frio externo,mesmo sabendo que o frio extremo que ela sentia(e sente ainda) é na alma.

04/11/2011 22:30

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Do começo do mês


Já estamos no começo do mês de novembro, e no final do ano de 2011(nossa!).Ainda com a mão cortada(um pequeno desvio no olhar me custou cinco pontos na mão direita) e com uma certa dificuldade para escrever,já que preciso do polegar para isso e estou impossibilitada de usá-lo,dou as boas vindas ao mês de novembro.Não me lembro de sequer sentir o ano passar(sou péssima em datas,meses...só lembro do dia do meu aniversário e,mesmo assim porque os outros me lembram),mas os meus dias tem sido importantes.Seja por um corte no lábio(eu juro que não vi o varal à minha frente),seja por uma viagem maravilhosa,seja por estar em casa,quieta e sozinha, seja por estar com as pessoas que me são caras(isso inclui as pessoas as quais não tenho afinidade),seja por estar ao lado de quem amo,mesmo que por pouco tempo,seja por subir numa árvore e chorar a tarde toda...meus dias tem sido diferentes e importantes pra mim.
Não me prendo a datas(a não ser por uma questão profissional.E nisso eu sou doentia),mas os acontecimentos de minha vida tem me trazido reflexões,todos os dias.

Só me resta agradecer(e pedir a Deus para chegar logo o dia em que tirarei esses pontos benditos que tanto me incomodam.)


"Acordei entre um tênue vento e uma luminosidade tímida.Ainda era cedo e olhava para o horizonte para descobrir,as cores e as intenções, com que vestias o novembro...

e que este venha e traga bons ventos."

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Das vantagens de ser bobo


O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando”. Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
(Clarice Lispector)

domingo, 16 de outubro de 2011

Todo o sentimento



Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.
...
Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.

(Chico Buarque)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Do andar e perceber

Depois de tanta confusão resolvi que precisava caminhar um pouco,antes que alguém fosse vítima da minha instabilidade momentânea.Fechei o portão.Para onde vamos,Karol?Não sei.Para onde as pernas quiserem ir.Então eu fui.Nunca andei tão lentamente pela rua, na verdade eu estava quase me arrastando.Tropeções os mais variados possíveis,mas isso não interessava muito,eu precisava andar.Me vi em pleno centro da cidade procurando um oftamologista.A hora não passava(e era o que eu mais temia que acontecesse).Fiz o caminho de volta.Entrei por ruas que não conhecia(não sei como consegui sair delas) e quando dei por mim estava eu, sentada no passeio de uma rua completamente deserta, com um copo cheio de açaí na mão.Eu estava cansada.Minha paciência estava frágil,meu amor latente,minhas dúvidas transbordando o cérebro...eu já não tinha certeza de quem eu era.Achei melhor levantar dali antes que meus pensamentos variassem demais e percebi que estava na dua atrás da praça em que eu brincava quando criança.Eu vi minha árvore.Como ela havia crescido!Eu chorei.Há muito tempo não chorava de tristeza, de medo,de angústia...é preciso chorar dessas coisas de vez enquando.E eu fitava a árvore que eu escalava quando menina e me aventurei a subir em seus galhos(alguns que eu já conhecia e outros que conheci).Chorei(neste momento já havia se tornado algo não voluntário).Revi toda a trama que me havia ferido a paciência.Chorei.A brisa de fim de tarde secava minhas lágrimas,mas eu continuei chorando.Precisava botar para fora as minhas incertezas,as minhas poucas certezas,as minhas responsabilidades e irresponsabilidades,as minhas decepções comigo mesma...chorei(e não tenho vergonha de admitir)e percebi que em mim ainda havia sensibilidade.Esta que achei que havia perdido nas tantas vezes que quis sentir e não pude,nas tantas vezes que quis chorar,mas precisei me fazer de forte,nas tantas vezes que precisei estar sozinha para ao menos perceber os olhos marejados d'água e uma multidão me cercava e me cobrava resultados,nas tantas vezes que, por medo,preferi camuflar a verdade de meus sentimentos com fantasias que aos poucos foram se desfazendo(não gostei dessa rima,mas como não achei uma palavra que pudesse substituir qualquer uma dessas...).Há em mim ainda a sensibilidade.Chorei.Agora não mais de tristeza e angústia,mas de alegria(há muito não choro de alegria).Desci da árvore e fui para casa.Cheguei e percebi que meu joelho direito doia, doia muito.Eu estava cansada.Olhos inxados,joelho doendo, a alma também doia,o cérebro fervilhando de lembranças...
Como um sopro divino, eis que me vem o bálsamo das dores: "...se não tiverdes fé, que esperareis?Não é a fé que dá o amor?Se não tendes fé qual será o vosso reconhecimento e ,portanto, o vosso amor?" E o sono.O joelho não dói mais,só resta o cansaço de uma tarde inteira de andanças.E a alma? A alma está trabalhando com a nova aprendizagem que Deus a permitiu.Triste ainda, mas esperançosa e...cheia de fé.

domingo, 9 de outubro de 2011

Por descuido ou displicência




É que pra Bia sonhadora
O mundo era azul por beleza
Tudo o que acontece se acontece era pra ser
Com certeza
É que pra Bia sonhadora o mundo era um balão
Que voava num universo caipira,
Nas festas de São João, que deus dá todo mês
(Oswaldo Montenegro)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Outro ponto de vista

Uma vez me fizeram uma pergunta interessante:Como é que eu sei que amo alguém?"Eu não soube responder,mas essa pergunta ficou martelando em minha cabeça até o presente momento.
Como a pessoa que me perguntou isso fará ou fez para descobrir a resposta, eu não sei,mas acredito,hoje, que existe todo um ciclo para se perceber o amor.Primeiro, a paixão ardente se apagará,a ideia do ser perfeito desaparecerá e algumas pessoas chorarão por isso(é duro saber que o amigo, o noivo,o marido,o colega de trabalho,não é exatamente aquilo que queríamos que fosse).A ilusão se fará em pedaços.Agora, ao invés do "príncipe dos olhos"(isso é apenas uma força de expressão para ilustrar a ideia de perfeição que temos)ver-se-a o indivíduo que erra,que chora,que fica nervoso,que pode ser extremamente estúpido,mas que pede desculpas, que sabe ser amável e sabe agradar com a sua simples presença(ai é que começa a se enxergar o amor).O "príncipe dos olhos" é um homem(no sentido de ser humano),mas aos olhos de quem o ama, mesmo com todos os defeitos possíveis, ele continua sendo um príncipe.
Depois que todas as traves que obliteram os olhos caem,depois que o fogo da paixão insana e desmedida se apaga(e isso se dá com todos os tipos de relacionamento),depois de se chorar pela desilusão da imagem do outro... se restar alguma coisa,é o amor.Só quem ama verdadeiramente é capaz de suportar a ruptura com as sensações mundanas e ver o outro como ele realmente é,sem que isso lhe cause qualquer tipo de espanto ou constrangimento.O amor é paciente e compreensivo,consegue ser forte e delicado ao mesmo tempo...
Quanto a menina que me fez a pergunta,eu não sei se obteve resposta,mas eu estou aqui...tentando descobri-la.

Do conflito e do para-quedas

Não sei se é porque estou sozinha no hotel,sem fazer nada(já que o congresso só começa às 14:00 e agora são, precisamente,11:55),mas me lembrei do rapaz que vi saltar de para quedas no dia em que cheguei.Eu inda tenho a terrível postura de tentar "adivinhar"a vida das pessoas(isso me trazia um incômodo terrível,mas agora não mais)e achei interessante tentar imaginar o trajeto e as sensações do indivíduo, antes que pudesse estar ali.
A namorada dele não gostou da ideia.Os amigos mais próximos o apoiaram,os mais distantes o criticavam,mas não comentavam nada quando em sua presença.A sua mãe quase morre de preocupação,já que no seu tempo essas coisas não eram "normais",mas ele...ele estava decidido.Queria saltar de para-quedas,sentir a adrenalina correr pelo corpo.Decidiu isso na segunda feira.
Na terça sua namorada contou que não havia gostado da ideia,que poderia acontecer algum imprevisto porque nem sempre esses materiais de paraquedismo são confiáveis.Na quarta um de seus amigos comentou que havia escutado em um restaurante que um casal da mesa ao lado da sua ouviu dizer que um amigo da prima da tia de terceiro grau da mãe,havia morrido num desses saltos(esses ouvidos nervosos...)Agora o homem estava confuso.E se o seu para-quedas não abrisse?E se chovesse no dia? E se o equipamento batesse em alguma árvore,rasgasse e ele caísse no meio da rua e fosse atropelado?E se desmaiasse em pleno voo?Ele não dormiu na quinta a noite e estava completamente aéreo na sexta pela manhã.No horário de almoço preferiu sentar-se no banco da praça,próximo ao seu trabalho,e lá ficou pensando.Uma menina(sempre as meninas)se aproximou e perguntou se havia algum problema com ele e,como ele não tinha nada a perder, contou pra ela todo o seu "conflito" e disse ao final: "Eu não sei o que fazer!".A menina o olhou com uma simplicidade incrível e perguntou: "o que você sente que deve fazer?O avião pode cair, ou não;e se o seu voo for perfeito? E se, ao invés de chuva,estiver um lindo por-do-sol? Ela então pegou uma garrafa de água e colocou na frente do rapaz e perguntou: O que você vê? Ele achou a pergunta um tanto infantil,mas respondeu:"vejo uma garrafa meio vazia".Ela disse:"pois eu vejo uma garrafa meio cheia".É só mudar o foco."
O homem não pensou duas vezes.Saiu correndo do banco da praça,foi em casa, deixou um bilhete explicando sua decisão à namorada.Vestiu a roupa que mais gostava e partiu para o clube de paraquedismo.Lá recebeu todas as instruções de como deveria proceder.O avião decolou.Seu coração estava a mil,mas ele sabia que era aquilo que queria fazer.As portas do avião se abriram e ele se jogou.O por-do-sol estava fantástico e uma brisa fresca passeava pela cidade e ele se encantou!Percebeu que há muito não observava o por-do-sol, de cima ele viu os jardins de sua cidade e lembrou que nunca mais passeara com sua namorada por aqueles lugares,ele viu o quanto a cidade em que mora é linda!E então ele gritou de felicidade.Neste momento estava eu, sentada na janela de um quarto de hotel. E eu o vi feliz, quando poderia estar triste.Bastou apenas... mudar o foco.

Um ponto de vista


Logo que cheguei ao hotel tomei um belo banho e, ainda abatida e cansada,sentei-me a beira da janela do quarto onde eu estou hospedada,no segundo andar.
Um por-do-sol vermelho alaranjado me trazia as mais sérias reflexões e a brisa fresca me aliviava as tensões dos músculos(a viagem foi extremamente cansativa).Foi quando percebi uma forma anormal no céu.Um homem que decidiu saltar de para-quedas.Ele vinha com os braços abertos e,pelos gritos, muito feliz(ou com muito medo).Eu o observei por um curto espaço de tempo(até porque, ele estava prestes a aterrizar),mas que me pareceu infinito.
O curioso da situação foi que algumas pessoas que também se aproximaram de suas janelas, teciam comentários que os meus ouvidos curiosos não puderam deixar de captar: "essa cara é louco!"; "essa gente que fica atrás de adrenalina...";"meu sonho é saltar de para-quedas(eu concordei muito com este)" ; "essas pessoas são extremamente irresponsáveis.Imagina se esse negócio não funciona(deve ter se referido a abertura do para-quedas) e esse cara sofre um acidente? Suicida..."
Mas o homem do para-quedas estava feliz(não sei como afirmo isso com tanta certeza, mas eu sinto que estava e eu confio no que sinto).Havia feito algo que queria fazer, que amava, de um certo modo.Nada que fosse ilegal,errado ou contra as leis de Deus,ele apenas fez o que sentiu que deveria fazer,mesmo que algumas pessoas não concordassem com a sua atitude(nem Jesus conseguiu agradar a todos...)

Ele estava feliz, realizado e, até o momento, é o que basta

30 de outubro; Foz do Iguaçu

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Do maravilhoso e simplesmente natural

E ela se encantou com a música que a natureza produzia.A melodia incomparável a seduzia,chamava-a.Se afastou dos demais(que estavam compreensivelmente distraídos com a beleza do lugar) e seguiu a música.Nunca ela ouviu nada igual,nunca imaginou algo que chegasse perto da perfeita melodia que as águas produziam quando se encontravam com as rochas.Andou,andou, e a cada passo a música se tornava mais intensa.Ela correu.Queria encontrar a fonte de tamanha riqueza...ela correu e parou.Palavra alguma pode traduzir o que os olhos daquela menina conseguiram registrar.A maior orquestra já vista... tanta beleza... ela não se conteve e chorou e cada lágrima sua se misturava com as águas que cantavam.Agora suas lágrimas também faziam parte da música infinita.
Todos os pensamentos se afastaram,ela jamais havia se sentido daquela forma.Uma emoção e uma energia inexplicável romperam do peito da menina que abriu os braços e fechou os olhos... sentia-se plena,abraçando o mundo.Cada gota de água que tocava o seu rosto trazia-lhe um sentimento e uma energia diferente e ela,ainda tão menina,sentiu a presença de Deus.
Não haviam palavras.As câmeras fotográficas não poderiam registrar o que aquela menina registrou.Menina que, ainda de braços abertos chorou e...agradeceu.

sábado, 1 de outubro de 2011

Declaração de reconhecimento

O coração sussurra aos meus ouvidos nesse momento.Palavras,lembranças,fantasias...ah coração!Sua ingenuidade,seu destemor,a sua fascinante liberdade me hipnotizam.Me pergunto de onde vem essa coragem de mostrar-se,de manter em meus olhos o brilho dos sentimentos.Cada atitude sua me encanta!A tua sutileza me encanta,criatividade(porque contornar as situações que se apresentam requer muita criatividade),a sua paciência(esta se não ajudar enlouquece)...a tua paciência!Esperas sempre,sem reclamar.Esperas o tempo de cada estrela no espaço infinito!Amas com uma complexidade e simplicidade que não são compreendidas pela massa cinzenta que rege o corpo, e tu esperas.
Não esperas o reconhecimento dos outros,não esperas que os outros te olhem nos olhos com a mesma intensidade com que olhas.Simplesmente segue a tua estrada,pleno,sublime, sorrindo e simples...complexamente amando,só amando.

12;07;2011

Da sofrida sensação

Eu pensei que soubesse ler os olhos.O sorriso,os gestos mais sutis...eu achei que pudesse lê-los.
Eu pensei que pudesse entender até mesmo o tom de voz.Hoje sinto como se houvesse perdido tudo isso,como se houvesse errado a interpretação de cada olhar que me fitou.Como é ruim essa sensação!Me sinto impotente. Não sei mais o que leio, apenas sei o que parte de mim.
Volta todo o medo que um dia me assombrou, volta toda a falta de coragem que imperou em minha vida.
Eu já não sei o que leio, o que enxergo,apenas o que sinto.
Eu pensei que pudesse ler os olhos,o sorriso,o tom de voz,os gestos mais sutis...mas agora me sinto surda e cega, como se todos pudessem ler os meus mais íntimos sentimentos e eu, cega que estou, não consigo ler nem as entrelinhas do meu próprio olhar,surda não consigo ouvir a confissão da minha própria consciência e isso me deixa vulnerável.Não gosto dessa condição,mas vejo que no momento é com ela que preciso trabalhar.

Queira Deus que isso passe logo... queira Deus que eu aprenda logo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

I dreamed a dream



Acho impressionante a capacidade dos indivíduos de se expressaram através da música.Pessoas que levam uma vida difícil,muitas vezes, mas fazem da música a sua bengala.Elas só "querem viver a vida fazendo o que acreditam que nasceram pra fazer."
A vida muda quando se tem música, quando se sente a música e é maravilhoso perceber que ainda existem pessoas tão simples, mas que guardam dentro de si um grande tesouro,aquele que poucos tem(ou melhor, que poucos tem a sensibilidade para perceber).É de emocionar e de agradecer a Deus esse elemento tão maravilhoso que Ele, em sua inteligência perfeita e amor incondicional,nos deu como instrumento para percebê-Lo.

Viva a boa música, viva a humildade e a simplicidade...viva a sensibilidade.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Há tanto tempo não escrevo…
Meus dias entupidos de trabalho,cansaço e discussões me tomam todo o tempo!Há quanto tempo que os meus olhos não cantam mais os sentimentos do coração.Não vejo mais a dança que me hipnotizava, não ouço mais a doce melodia que o coração tocava…
Doce época das luzes azuis que rodavam o meu quarto ao som de “chuva”...eu via danças e cores, com as mesmas características dos meus mais puros sentimentos, e eu adormecia embalada pelas mais maravilhosas sensações.
Ah,Senhor… há tanto tempo que não escrevo…há tanto tempo que não sonho…

PS:Esse texto foi escrito dia 07/07/2011, sendo que a última vez que eu havia relatado qualquer evento,de qualquer ordem,de forma escrita foi dia 08/08/2010.
Ai está um dos poemas que mais gosto(na verdade, tenho uma certa predileção por este).Pablo Neruda consegue fazer, sem muito rodeio,uma síntese perfeita de seus sentimentos(e de muitos sentimentos vividos por outras pessoas que não tem essa capacidade de síntese),sem banalizá-lo.



Não te amo como se fosses rosa de sal,topázio
Ou flecha de cravos que propagam fogo:
Te amo como se amam as coisas mais obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.


Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si,a luz daquelas flores,
E graças ao teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.


Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo diretamente, sem problemas nem orgulho
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira

Senão assim deste modo em que não sou nem és
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha
Tão perto que se fecham os teus olhos nos meus sonhos.

(Pablo Neruda)

Era um menino de olhos vibrantes.Olhos que jamais aquela menina havia visto, apesar da sua pouca idade.Quando ela o viu, saiu de si e se percebeu em um ambiente completamente diferente do que habitava.Flores, folhas, um sol radiante, a grama verde e macia,o bosque que embelezava ainda mais o ambiente e deixava aquela sensação de mistério e beleza, que fascinava a garota.
Mas ela então percebeu aquele mesmo menino sentado em um outro pedaço de terra(que não era tão maravilhoso quanto o seu) olhando fixamente para ela.
- Olá! Disse a menina.
-Olá! Respondeu o garoto que a olhava tão fixamente que parecia não se dar conta do acontecimento ao seu redor.
Não houve mais conversação verbal. Eles se olhavam de uma tal forma, que a comunicação se dava atravez do pensamento, dos gestos, das pequenas expressões faciais.A menina sentia cada detalhe, cada mínimo gesto do garoto, que continuava olhando-a fixamente.
Passaram muito tempo conversando sobre as coisas da vida,sobre coisas corriqueiras,até que a garota disse um dia:
- Menino, eu queria poder te dar um abraço.
O garoto sorriu pra ela,como a dizer “eu também,menina” e foi cuidar de seus afazeres.
Um dia a menina percebeu uma pequena ponte que ligava os dois pedaços de terra, que eram separados por um imenso buraco.Teve a idéia de pedir ao menino que a atravessasse, para que pudessem se comunicar melhor:
-Ei, menino!O que você acha de atravessar essa ponte para nós conversarmos?
-Eu não a vejo!Respondeu o menino.
-Como assim não a vê?Ela é larga, está aqui na frente permitindo o trânsito desse lado para o lado de cá!
-Eu não a vejo.Respondeu desanimado o menino que pouco depois saiu dali.
A menina não entendia como o garoto não conseguia enxergar a ponte tão clara que ligava os dois lados.Decidiu então ela mesma atravessar para o lado de lá.
No dia seguinte comunicou ao menino:
-Ei, garoto! Já que você não vê a ponte que eu vejo, então serei eu a atravessá-la para chegar ao seu lado da terra.
-Não faça isso, menina! Respondeu o garoto melancólico. Aqui é tão triste! Não há espaço para nós nessa mísera terra.
-Como assim não há espaço para nós?O seu lado da terra é gigante, cabendo nós dois e muita gente!
O garoto saiu novamente sem se despedir e a menina estava decepcionada. Estava disposta a tentar chagar ao outro lado, mesmo que para isso tivesse que brigar com o menino.No dia seguinte ele não apareceu,nem no outro, nem no outro.A menina se encheu de tristeza por dentro, apenas com a lembrança do olhar daquele garoto, um olhar que mais parecia o de um homem trancado em suas mais profundas mágoas.
A garotinha começou então a observar a terra em que habitava o garoto.Era uma terra muito organizada.Havia prédios bem construídos,Todo um sistema na divisão dos locais apropriados para construções civis e áreas dedicadas ao lazer.Tudo com uma complexidade muito grande.Mas havia uma parte da terra que não havia nenhum tipo de construção.Não havia nada.Nem flor, nem prédio,nem gramado… absolutamente nada! E a menina então se porguntou o porquê de tantas construções em determinados espaços e somente aquele era tão pobre.
Dias depois o garoto reapareceu.Sentou-se onde era de costume e se pos a observar a menina.
-Desculpe a minha intromissão.Começou a menina um pouco tímida. Sei que não é da minha conta e não precisa responder se não quiser, mas por que você construiu tudo isso e deixou aquele espaço totalmente vazio?
Pela primeira vez ela viu os olhos do garotinho mudar de expressão, marejados de lágrimas.
-Há algum tempo tentei construir uma estrutura jamais vista.Uma que ninguém conseguisse imitar ou fazer parecida.Quando eu estava no auge da construção, essa estrutura desabou.Todos os meus melhores sentimentos foram soterrados junto com aquela estrutura que eu amava.Não quis construir nada parecido com aquilo,nunca mais.
A garota estava quase em prantos.Então era por isso que ele não queria que ela atravessasse a ponte, mas nem precisou fazê-lo para que ela precebesse quanta dor ele trazia por conta dessa catástrofe.
- Menino,permita que eu vá ao seu lado da terra!Podemos contruir outra coisa mais bonita!Podemos fazer um belo bosque neste local, ou um jardim com flores diversas.Haverá borboletas todos os dias para enfeitar a sua terra.O por-do-sol deste lado será mais bonito e as pessoas que passarem por qualquer lugar deste terreno sentirão uma felicidade que há muito vocês não sentem.Permita que eu adentre o teu terreno!Não temo a tristeza, a solidão que sei que habitam este lugar.Nós o faremos um dos lugares mais felizes que os moradores de tua terra já viram.Confia em mim.
-Confio em ti, doce menina!Mas creio que não haja solução para este lugar.Não agora.
Hoje o menino continua a arrumar as suas estruturas e a menina espera pacientemente o convite do garotinho para travessar a ponte.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Realmente um demônio!


Existem lembranças que nos atormentam dia e noite e até nos acostumamos com algumas delas.Mas existem aquelas que,sem um motivo aparente,tomam a nossa tela mental de uma maneira inexplicável(estas são as piores, ao meu ver,pois, além de ter que lidar com os sentimentos que nos assaltam sem que estejamos preparados para recebê-los, ainda temos que lidar com a frustração de reconhecer que não conseguimos trabalhar tal lembrança,mesmo depois de tanto tempo).
Recentemente tal situação me ocorreu.A lembrança mais dolorosa que possuo simplesmente(claro que simplesmente substitui toda a problemática psico-fisiológica pela qual se deu a lembrança)me tomou a memória.Pela primeira vez me vi sem reação alguma diante do meu pensamento.Depois que recobrei a consciência as únicas coisas que sairam de mim,involuntariamente,foram lágrimas(de arrependimento,de saudade,até de felicidade...).Eu não tinha idéia de que um fato ocorrido há quase dez anos pudesse brotar e me trazer essa sensação de "impotência".
Como não acredito em "acasos",(e isso por razões não tão óbvias,mas que poderemos discutir em outro texto)há,sim,um motivo para eu ter lembrado desse acontecimento.Estou aqui,tentando descobri-lo.É um processo extremamente...complexoO(eu sei que eu poderia ter fechado o texto de outra forma mais criativa e genial,mas a inspiração acabou justamente no último parágrafo.Mas o final ficou,no mínimo...podre!)

Segundo Motivo da Rosa (a Mário de Andrade)


Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
oferece às vespas e às abelhas.

E a quem te adora, ò surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas...

(Cecília Meireles)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Àquela que me torna plena



Há tanto tempo que não ouço essa música!Ela me vem como uma velha amiga que aparece repentinamente em casa e , apesar de não estar preparada emocionalmente para recebê-la,eu não me importo, nem me sinto constrangida em sua presença.Ela entra, se aconchega, toma um vinho e traz histórias de minha infância(tão complexa infância),das minhas amizades(inclusive das que partiram para a eternidade),dos meus desenganos,desilusões(que nada mais são para mim que o momento do despertar da consciência).
Tão amiga e companheira tu és,música!Tu abres as portas da alma e os sentimentos brotam num misto de saudade, dor e equilíbrio.És quem me dá a vida, és quem me refresca nos dias quentes com a tua harmonia e balança os meus cabelos.És quem me aquece nos dias frios, em que a vida me apresenta as neves de problemas,tu me fazes olhar para o céu todos os dias e ver tudo diferente do dia anterior.
E sei que neste mundo ainda és tão imperfeita!Compreendida por poucos(ou por ninguém), enquanto muitos te tratam com desprezo(basta ver o que muita gente chama de música hoje).Mas mesmo assim te contemplo, te vejo e te sinto.Estás em mim, em todos nós, e assim cresceremos.



"Vive tu, meu menino, os belos anos junto dos teus,na doce companhia do que há de melhor em corações humanos, e faze deste dia eterno dia."(Machado de Assis)




O bom de entender e de sentir a eternidade é a extensão que a vida toma.Não dá mais pra enxergar o ser humano da mesma forma.Observa-se mais, ama-se mais,compreende-se mais,espera-se mais... e os dias deixam de ser vazios e solitários e passam a ter um gosto diferente,um jeito diferente de começar e terminar.

Não defendo a idéia de "viver" que muita gente expõe em alto e bom som, como sendo a forma de se fazer tudo o que quer sem respeitar o direito dos outros e sem respeitar, principalmente, as leis que nos regem(não só as leis relacionadas à constituição).Falo de vida da forma mais plena que as minhas limitações me permitem escrever; da forma mais doce e sutil que eu consigo sentir.Amar como se fosse o último sentimento que pudesse nutrir por alguém, mas sabendo que amanhã amará ainda mais ,sonhar como se fosse a última imagem que se pudesse ter na memória, mas saber que o amanhã nos permitirá a sua realização,esperar tão plenamente, como se fosse a última coisa que se pudesse fazer por alguém,mas saber que amanhã continuaremos esperando,viver como se tudo fosse acabar hoje, mas sabendo que o amanhã também é certo, de algum modo.Acredito que seja esse o meu modo de eternizar os meus dias.

sábado, 27 de agosto de 2011

Recepção a mim

A complexidade é algo fantástico e enlouquecedor.Das minúsculas sílabas às grandes palavras, do maior discurso ao mais sutil olhar, de uma única lágrima à mais triste expressão... tudo é complexo.
Falar das verdades que não compreendemos, das que tentamos compreender, das que preferimos não enxergar porque ela insita em nós um comportamento(na verdade um sentimento) que ainda não conseguimos definir ou disfarçar.
Tenho a necessidade de me compreender por inteiro, de me sentir, de me pensar, de desenrolar as teias que eu mesma formei tentando me achar(ou achar parte de mim) e talvez a escrita me ajude, já que minha memória é um tanto falha, no que diz respeito a lembrar dos fatos e encaixá-los para obter respostas.

Dou-me as boas vindas a este lugar e espero que os meus demônios de agora sejam os meus anjos de amanhã.