sábado, 30 de junho de 2012

Da lembrança inesperada



Numa cidade quase desconhecida,numa rua quase familiar, a menina corria, tentando evitar que a chuva a molhasse. Mas aquilo era uma diversão,não um sofrimento. Corria porque achava divertido, se sentia livre... e ria...ria alto... soltava gargalhadas no meio da rua deserta.  Já dentro da casa, ela correu para o quintal, o imenso quintal, e viu a chuva cair forte e se misturar com os raios de um sol que se despedia. Um espetáculo, o céu laranja forte e o barulho da chuva.

Foi ao som da chuva e de chopin que a menina que estava numa cidade quase desconhecida, que correu numa rua quase familiar e que estava quase triste, por um breve e intenso momento, foi completamente feliz.

sábado, 16 de junho de 2012

Da menina do conto de fadas

‎"Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada…"


Mas o desencanto é apenas um momento vivido pela menina, ,porque ela é o próprio encanto, é a própria fada, cujas asas possuem o mais doce e terno brilho. E essas coisas verdadeiras que se conquistam dia-a-dia nunca se perdem.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Sem aspas

... e vá se livrando de tudo aquilo que não lhe pertençe, até que fique só a essência...só a luz...só o amor.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Da carta que ela lê

E ela analisa, todos os dias, as entrelinhas daquela carta, aquela enorme carta que descreve pedaços de sua vida e pedaços de outra vida. É difícil entender certas coisas,sentir certas palavras, decifrar certos mistérios que só o coração(ou cérebro) de onde partiu tudo aquilo é capaz de compreender. E com uma doce angústia que habita o seu peito e uma lágrima suave e triste que resolve, de rebelde que é, escapar-lhe pelos olhos, ela abandona a carta sobre a cama e sai, para esquecer,para controlar a avalanche de sentimentos dentro de si.
Mas vez por outra ela volta,se senta na cama e lê novamente aquelas linhas, tão doces e angustiosas linhas, por sentir que fora elas e os seus sentimentos,nada mais restou.

Lá vai ela novamente, sob os raios alaranjados de um sol que está se despedindo, sentar-se na janela para ler sua carta(já tão amassada). E eu,tola que sou, digo: "Saia daí,criatura!Não vês que não adianta mais tentar entender essas grandes linhas? Acabou!" E ela, como só quem ama tem o dom de responder, diz numa voz doce e triste: " É. Entender é bem diferente de sentir,sabia? E dos dois, eu opto pelo segundo,então deixe-me aqui, sentindo, pois, se isso eu não puder, então minha vida perderá todo o sentido que dei a ela."

E lá fico eu,olhando e secando as lágrimas que caem,inevitavelmente, dos olhos de uma menina... de, e apenas, uma menina.


terça-feira, 12 de junho de 2012





"Mas se amo os teus pés 
É só porque andaram 
Sobre a terra e sobre 
O vento e sobre a água, 
Até me encontrarem." 
(Pablo Neruda)

sábado, 9 de junho de 2012

Do despir-me de mim mesma

Sai desse pouso, sai desse canto, sai desse leito. Deixa eu tocar o teu peito, sentir o teu jeito, arrancar de dentro de ti essa opressão que tenta sugar a seiva do teu corpo vital. Vem! Cuido-te com calma. Dês a ti o direito de ser livre e feliz. O amor? O amor cura tudo: os males do corpo e os males da alma. Depois? Depois tu voltas. E eu? Volto contigo.

terça-feira, 5 de junho de 2012

I dreamed that love would never die I dreamed that God would be forgiving... ...And still I dreamed he'd come to me And we would live the years together, But there are dreams that cannot be And there are storms we cannot weather.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O homem que estocava o tempo

Tempo e amor. E porque tinha demais, não dava importância. Mas um dia essas coisas foram se acabando, e ele se viu sem nada. Foi numa viagem de trem que eu o conheci. Era um senhor distinto, apesar de se vestir de maneira simples. Dizia-se ser muito elegante. Perguntei o que fazia, sem dar muita atenção, apenas para ser educado e tornar a viagem um pouco mais agradável. Disse-me ser um mercador. E foi mais ou menos assim que se deu essa conversa: - Mercador? E com o que trabalha? - Compro tempo. - Desculpe? - Perguntei ainda sem tirar o jornal do rosto. Pelo canto do olho pude notar que o homem percebeu que eu havia entendido o que ele havia dito. Mesmo assim, muito educadamente, repetiu: - Compro tempo. - Compra e vende tempo? – E achei a idéia absurda. Como alguém poderia comprar o tempo? E para quê algo tão sem sentido. Mas fui deixando a conversa seguir... - Não, só compro. - Mas se não vende que valor tem isso? Como irá lucrar? - Estou estocando, guardando todo tempo que consigo achar, para quando faltar. E fui achando aquilo mais absurdo ainda. Confesso que já estava um pouco indignado com aquela conversa, mas continuei sabe-se lá porque... - Mas isso não faz sentido. Essas coisas não tem valor. Tem no mundo de sobra. Se não irá vender, não irá lucrar. De que adianta guardar? O homem olhou para mim com um leve sorriso condescendente e não disse nada. Mas eu, nessas tolices da vaidade, interpretei o gesto como desdém e fiquei mais irritado ainda. Não quis continuar a conversa. Se era algo que valia tanto, não era eu quem ia gastar o meu tempo ouvindo aquelas besteiras. Fui olhando a paisagem, as folhas no pasto, meu relógio de bolso, e assim a viagem foi passando. Em certa estação, não me lembro mais qual delas, ele me deu sorriso e um adeus extremamente educado. Eu confesso ter sido um pouco ríspido– eu estava ainda irritado, nem tanto pelas tolices, mas mais pelo ar arrogante do sujeito. Fiz um movimento de cabeça qualquer, sem aparentar dar muita atenção, o que considero hoje muito infantil de minha parte. Ou talvez nem tenha respondido o cumprimento. Ele desceu do trem e se foi. Nunca mais ouvi falar. Continuei vivendo minha vida de qualquer maneira. Confesso que por diversas vezes – e aí os senhores vão me achar um pouco infantil -, me lembrava daquele homem em algumas situações, quando estava gastando meu tempo. “Veja, seu tolo... quer comprar o tempo? Dou-lhe de graça. Tenho de sobra...”. Mas os anos foram se passando. Amores vieram e se foram. Alegrias e tristezas passaram por mim. E agora, hoje que me faltam os anos, percebo o quanto o tempo é importante. Mas não tenho muitos mais. Quisera eu ter estocado, guardado algum para os bons momentos. Gostaria imensamente de comprar algum, mas não se acha. E agora eu entendo aquele senhor. (Eduardo Prates)