terça-feira, 28 de agosto de 2012

Do sonho que é só dela


Ela então levantou- se de súbito e ele, como a entender que aquilo era uma despedida, levantou- se também para cumprimentá-la. A menina fixou firmemente o seu olhar nos olhos dele, se aproximou  e, com a suavidade de uma flor, tocou-lhe o rosto já tão marcado pelo tempo. Delineou cada traço, cada linha que conseguia perceber, tentando adivinhar o porquê de elas estarem ali. Ele apenas fechou os olhos para sentir o toque daquela mão tão suave e respirava fundo, como a guardar dentro de si o perfume que ela carregava. Ele então abriu os olhos, a segurou docemente pela cintura e aproximou-a ainda mais do seu corpo. Ela, com toda a simplicidade de uma menina, perguntou: “Está com medo?” Ele apenas balançou a cabeça negativamente e, no momento em que tentou encostar seus lábios nos dela, cuidadosamente e com um sorriso que indicava a plena consciência de seus atos, ela encostou o seu dedo indicador, impedindo-o de continuar: “ Não sei se você já percebeu isso, mas eu nunca tive a oportunidade de lhe fazer um carinho.” E tocou levemente os cabelos cacheados do menino. E foi durante o percurso dos dedos tão magros dela por dentro dos seus cabelos, que ele entendeu o que era verdadeiramente importante. E se sentiu feliz. Olhou para os olhos – grandes olhos- da menina e beijou-lhe a fronte, com doçura e amor que há muito não sentia por ninguém e permitiu que sua cabeça descansasse sobre aqueles ombros jovens, sem aflição, sem receio. Ali ficaram os dois, se importando apenas com a presença e com a doce felicidade que sentiam na companhia um do outro.

Mas ela abriu os olhos e tudo voltou para o guarda- sonhos que ela havia feito.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

E ponto!


Por pelo menos uma hora, eu tive a brusca impressão de não o conhecer. Jamais poderia imaginar que o homem que seria o mais importante para mim, poderia dizer que eu não faço diferença na vida dele. Ele próprio fez minhas malas e atirou-as para fora do seu coração (se é que um dia eu estive lá). “Saia.” Esta foi sua última fala. Desconsiderou os esforços para nos mantermos em harmonia, mesmo quando ele próprio a queria destruir; as tantas vezes que dividimos com ele o peso que seus ombros e seus pés já não conseguiam mais carregar... Eis que agora ele é um homem de Deus e no seu coração, na sua casa e na sua vida já não há mais lugar para os outros, nem para os que ele chama de “família”. Se eu sinto raiva? Não, não. Em todos esses anos de convivência eu aprendi que os irmãos mais necessitados precisam mais do nosso amor que qualquer outra pessoa. Eu entendo e respeito sua decisão.  Precisamos da tristeza para aprender algumas lições e, se essa é a necessidade dele, que assim seja. E ponto.

Que Deus permaneça segurando a sua mão.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Dos detalhes



Me disseram uma vez que “ a vida é feita de detalhes”,mas pensando agora,não concordo muito com essa frase.Dizer que a vida é feita de detalhes é justamente ignorar o sentido da palavra.Não se amarra um detalhe no outro, no outro,no outro,no outro e desse tanto de detalhes se obtem um inteiro que é a vida.Na verdade  o detalhe é o que amarra os “todos’’ que temos e o que dá sentido ao conjunto.
Os detalhes são os mais difíceis de se perceber,porque eles não se mostram,não ficam nem ao lado do todo,mas por trás.Temos que descobrí-los.Não precisa ser um músico ou musicista para perceber os detalhes da música, como também não precisa ser um idoso para perceber os da vida(mas algumas vezes é preciso um pouco mais de experiência para ter essa percepção mais latente).
Algumas pessoas se emocionam profundamente com uma música.Umas nem chegam a chorar,mas todas as expressões, desde o brilho dos olhos ao tom de voz,mudam por conta da emoção.Ninguém começa a se emocionar ao primeiro toque da música.Tem sempre uma parte,uma nota,um detalhe percebido inconscientemente,que  traz todo um sentimento,muitas vezes incontrolável,incompreendido,injustificável e a partir daí todo o resto começa a ter um sentido mais real.A vida é do mesmo jeito.Quem nunca chorou sem ter um motivo aparente?São os pequenos detalhes que descobrimos inconscientemente(alguns são mais fáceis de aceitar que outros)e depois uma reação frente à descoberta.O poder dos detalhes…uma nota,uma lágrima,uma palavra,um olhar,um sorriso,um arranhão,um sonho,um passeio,um adeus,um até logo,uma voz,… ainda teremos que trabalhar muito a nossa sensibilidade para percebê-los como realmente precisam e merecem .


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Da conversação

(O tio faz um café, bem quentinho, e serve para a menina.  Então ele se senta, olha no fundo dos olhos dela... )

Tio: Neguinha, como está o seu coração?

Menina (assustada com a pergunta): Está ótimo! Batendo forte, todos os dias.

Tio(com cara de preocupado): Você se afastou daquele menino?

Menina: Por que eu deveria?

Tio: Neguinha, ele não é o tipo de pessoa com quem você deva conviver!

Menina: Por quê?

Tio: Não vem ao caso agora...

Menina ( com uma cara de perplexidade com a resposta do tio): Como não? Você quer  que eu me afaste de alguém e não quer me dizer os seus motivos! Você, meu caro, está falando da minha vida!

Tio: Neguinha, eu já tenho 47 anos de idade, já vi muita coisa nessa vida, conheci muita gente. Eu não quero que você se machuque com essa história, entendeu? Ele é uma pessoa que tem muitos problemas e esses problemas são muito grandes para que você se envolva! Deixe-o ir, afaste-se! Pessoas melhores vão surgir na sua vida, você vai ver!

Menina ( com o ar de serenidade que só uma menina tem): Eu respeito muito os seus 47 anos de idade e agradeço a sua preocupação. Certo dia, conversando a sua esposa, ela me contou a história de vocês dois.

Tio: O que isso tem..

Menina:Tem que vocês dois tiveram muitas dificuldades para consolidar o relacionamento de vocês. Para os pais dela, para os amigos mais queridos, você era uma pessoa problemática e ela não precisava de uma pessoa assim na vida dela! Você consegue imaginar quantos amigos de 40, 42, 45, 47, 53 anos de idade, além do pai e da mãe dela, deram esse mesmo conselho para ela, com relação a você? O rapaz, que andava como um louco, de calça rasgada, chinelo de dedo, corrente no pescoço e ainda que gastou o seu primeiro salário comprando garrafas de cachaça e, um belo dia fez o favor de aparecer bêbado na porta da casa dela? Quantas pessoas, naquele dia, disseram que você tinha sérios problemas e que ela não precisava disso na vida dela? Quantas pessoas, que só queriam vê-la feliz, disseram tudo isso que você está me dizendo? E olha que eles tinham motivos de sobra e jogavam todos na cara da pobre tia. O que ela fez,tio? Me diga em voz alta o que ela fez.
Tio (já com a cabeça baixa): Ela não me deixou.

Menina: Pois é,tio! Imagina se ela tivesse seguido os sábios conselhos dos seus pais, amigos e avós?

Tio ( quase sussurrando) : Não gosto nem de imaginar.

Menina: Eu sei que não. Todos temos problemas e cometemos erros, mas se todos fossem se afastar por causa disso, o que seria de nós? Isso é até uma falta de caridade!

Tio: Pensando bem...

Menina: Sabe tio, eu prefiro chá.


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Canecas e chás...e muitos chás


É aqui que deixo os meus demônios. Sentada na cadeira do escritório,à meia noite e meia,atiro-os, todos eles.Liberto-os dos giros do meu cérebro,do sangue que corre nos menores capilares do meu coração,juntamente com as idéias mais doloridas de minha alma.É que nós não nos misturamos.As felicidades são mais sutis,mais leves, e logo se diluem nos pontos de luz(ainda poucos,reconheço) em mim,mas os meus demônios, não.
Mas eu não os jogo fora. Retiro-os, claro, de mim, principalmente quando afetam as minhas fragilidades (sempre), e os guardo em outro lugar.Por que os guardo? Para olhá-los mais profundamente e entender o seu significado. É que demônios se tornam anjos, na verdade, esses demônios NOS tornam anjos, uma hora (e aí nós temos a eternidade para entender o significado de uma hora).
Aqui despejo as minhas dificuldades em lidar com as coisas fáceis, com as coisas bonitas e também as minhas facilidades em contornar o que não é tão bonito assim… são os meus demônios que farão de mim, ainda átomo, arcanjo.
E entre chás e canecas(minha linda coleção de canecas) eu os avalio e eles sorriem para mim. Eles não são tão feios quanto o nome que usei para designá-los. Eles são apenas retratos do que fui e do que fiz… alguns outros são reflexões das conseqüências do que vou fazer.
Outros, porém, são só histórias( ou estórias) do que vejo por aí( apesar da pouca idade terrena, eu vejo, sim, muita coisa) e interpreto, de acordo com a minha visão, um tanto 
embaçada, admito. Mas assim eu vou tentando, escrevendo( muito mal, preciso admitir também) sobre as minhas problemáticas, porque as minhas felicidades eu trato aqui, (quase) egoisticamente, dentro de mim mesma. 


Acho que preciso de mais chá...


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Das lembranças

Nessa madrugada fria, elas resolvem dançar em minha mente. Mal serro as pálpebras, cheias de tédio e de reflexões, e elas saltam, quase que involuntariamente, e fazem o seu show, apenas para mim. Estavam todas guardadas, presas, mas depois de ouvir a voz tão doce deste coração menino, me distraí por um segundo e todas elas estão aqui, no meu consciente. Hoje eu não irei prendê-las. Apenas fecharei estes - grandes - olhos e deixarei que continuem a dançar este "Noturno" em que se espelham. Afinal, não são lembranças ruins( apesar de querer evitá-las). São doces, com uma pontinha de dor no final(ou será saudade?). Mas vou deixá-las por aqui.

Não quero prendê-las... não hoje.