sexta-feira, 1 de junho de 2012

O homem que estocava o tempo

Tempo e amor. E porque tinha demais, não dava importância. Mas um dia essas coisas foram se acabando, e ele se viu sem nada. Foi numa viagem de trem que eu o conheci. Era um senhor distinto, apesar de se vestir de maneira simples. Dizia-se ser muito elegante. Perguntei o que fazia, sem dar muita atenção, apenas para ser educado e tornar a viagem um pouco mais agradável. Disse-me ser um mercador. E foi mais ou menos assim que se deu essa conversa: - Mercador? E com o que trabalha? - Compro tempo. - Desculpe? - Perguntei ainda sem tirar o jornal do rosto. Pelo canto do olho pude notar que o homem percebeu que eu havia entendido o que ele havia dito. Mesmo assim, muito educadamente, repetiu: - Compro tempo. - Compra e vende tempo? – E achei a idéia absurda. Como alguém poderia comprar o tempo? E para quê algo tão sem sentido. Mas fui deixando a conversa seguir... - Não, só compro. - Mas se não vende que valor tem isso? Como irá lucrar? - Estou estocando, guardando todo tempo que consigo achar, para quando faltar. E fui achando aquilo mais absurdo ainda. Confesso que já estava um pouco indignado com aquela conversa, mas continuei sabe-se lá porque... - Mas isso não faz sentido. Essas coisas não tem valor. Tem no mundo de sobra. Se não irá vender, não irá lucrar. De que adianta guardar? O homem olhou para mim com um leve sorriso condescendente e não disse nada. Mas eu, nessas tolices da vaidade, interpretei o gesto como desdém e fiquei mais irritado ainda. Não quis continuar a conversa. Se era algo que valia tanto, não era eu quem ia gastar o meu tempo ouvindo aquelas besteiras. Fui olhando a paisagem, as folhas no pasto, meu relógio de bolso, e assim a viagem foi passando. Em certa estação, não me lembro mais qual delas, ele me deu sorriso e um adeus extremamente educado. Eu confesso ter sido um pouco ríspido– eu estava ainda irritado, nem tanto pelas tolices, mas mais pelo ar arrogante do sujeito. Fiz um movimento de cabeça qualquer, sem aparentar dar muita atenção, o que considero hoje muito infantil de minha parte. Ou talvez nem tenha respondido o cumprimento. Ele desceu do trem e se foi. Nunca mais ouvi falar. Continuei vivendo minha vida de qualquer maneira. Confesso que por diversas vezes – e aí os senhores vão me achar um pouco infantil -, me lembrava daquele homem em algumas situações, quando estava gastando meu tempo. “Veja, seu tolo... quer comprar o tempo? Dou-lhe de graça. Tenho de sobra...”. Mas os anos foram se passando. Amores vieram e se foram. Alegrias e tristezas passaram por mim. E agora, hoje que me faltam os anos, percebo o quanto o tempo é importante. Mas não tenho muitos mais. Quisera eu ter estocado, guardado algum para os bons momentos. Gostaria imensamente de comprar algum, mas não se acha. E agora eu entendo aquele senhor. (Eduardo Prates)

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